Campanha do Greenpeace pressiona Bunge por produção livre de transgênicos - 24/06/2005 10:30:00
Um carrinho de supermercado gigante equipado com alto-falantes e recheado de produtos alimentícios da marca Bunge é a principal atração da nova campanha de mobilização de consumidores que o Greenpeace lançou nacionalmente. A organização está incentivando consumidores a questionarem publicamente a empresa sobre o uso de transgênicos em seus produtos. Dezoito outdoors, distribuídos em 11 cidades brasileiras e banners de internet, são as outras ferramentas de comunicação com o público.
“Queremos dar voz a milhares de consumidores brasileiros que rejeitam os transgênicos em seus pratos”, explicou Gabriela Couto, da campanha de engenharia genética do Greenpeace. Segundo pesquisa realizada pelo ISER em 2004, mais de 70% dos brasileiros não querem consumir alimentos transgênicos. “Através de nosso site, estas pessoas poderão enviar mensagens à Bunge manifestando seu direito de saber o que estão consumindo e seu desejo de consumir produtos livres de transgênicos”, completou Gabriela.
A escolha da Bunge como alvo deve-se ao seu papel de líder no mercado de óleos e margarinas e de grande fabricante de maionese. A empresa é também a maior “trading” do mercado de grãos no país. A Bunge adota o duplo padrão em seu relacionamento com os consumidores. Tem uma linha de produtos certificados como não transgênicos, de acordo com exigências específicas de clientes. No caso dos óleos, margarina e maionese alvos da campanha do Greenpeace, a empresa não oferece informações sobre a matéria-prima utilizada na fabricação.
Em 2004, o Greenpeace denunciou a fábrica de óleos da Bunge em Passo Fundo (RS). Na ocasião, a própria empresa admitiu não realizar controle da matéria prima em seus produtos finais. “A postura da empresa em relação aos consumidores é vergonhosa. A Bunge deve respeitar os cidadãos, informando em seus produtos a qualidade da matéria-prima utilizada em sua fabricação. Só assim os consumidores poderão escolher alimentos que não destroem o meio ambiente”, afirmou Gabriela.
Matéria-prima - Na produção de óleos vegetais e derivados, as moléculas de soja são esmagadas de tal forma que um teste de transgenia é incapaz de detectar a presença de transgênicos em seu DNA. Por isso, produtos como margarinas, óleos, margarinas, maionese e gorduras vegetais não podem ser definidos como transgênicos, o que não significa não ter sido usada matéria-prima transgênica em sua fabricação. Apesar da incapacidade de detecção, a empresa é obrigada a informar sobre o uso de matéria-prima transgênica ao consumidor, de acordo com Decreto de Rotulagem 4.680/03.
“Poucas pessoas sabem que esses produtos não podem ser testados em laboratórios. E a Bunge se aproveita disso para tentar enganar os consumidores”, alertou Gabriela. O fato de o resultado do teste não apontar transgênicos no produto final não significa que o produto não tenha sido feito com soja transgênica. “Por isso, o papel do consumidor é fundamental: é preciso exigir que a Bunge garanta que seus produtos não contenham e não sejam feitos com transgênicos”.
O controle da produção e o banimento do uso transgênicos nos produtos têm sido uma política freqüentemente adotada por empresas de alimentos no Brasil e no mundo, segundo Relatório de Mercado Europeu do Greenpeace/2005. No último mês de maio, o Greenpeace anunciou que, graças à pressão dos consumidores, mais sete empresas (Bauducco, Dr. Oetker, Ducoco, Fritex, Kopenhagem, Massa Leve e Visconti) passaram para a “Lista Verde” do Guia do Consumidor ao garantir produtos livres de transgênicos. “Chama a atenção o fato de que estas empresas anunciaram a política de não-utilização de transgênicos após a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de 2005”, comemorou Gabriela Couto.
BOX
Soja transgênica causa danos ao meio ambiente
A soja transgênica foi criada pela multinacional Monsanto para ser resistente ao agrotóxico Roundup, solucionando os problemas que os agricultores enfrentam com as ervas invasoras, o mato, que é tolerante aos agrotóxicos usados nas plantas convencionais. O problema é que após dois ou três anos de cultivo de soja transgênica, as plantas passam a oferecer resistência ao Roundup, obrigando o agricultor a usar cada vez doses mais elevadas do produto e de outros tipos de herbicidas.
A liberação comercial da soja transgênica aconteceu em 1995 nos EUA, e desde então já foram constatados diversos impactos que estes organismos têm causado no meio ambiente e na vida dos agricultores. O incremento do uso de agrotóxicos após o terceiro ano consecutivo do cultivo da soja transgênica tem sido responsável pelo aumento da contaminação do solo e de rios que margeiam as plantações, pela eliminação de espécies fundamentais para o equilíbrio da vida silvestre e ainda pela redução de até 4% em sua produtividade, segundo dados do economista agrícola norte-americano Charles Benbrook.
Além dos impactos ambientais causados pela tecnologia transgênica, a Bunge, e outras empresas do setor de agronegócios, é apontada como uma das responsáveis pelo avanço da fronteira da soja sobre a Floresta Amazônica, principalmente no Mato Grosso. É no Mato Grosso que está concentrada a maioria dos silos da Bunge, 54 no total. “O Estado é atualmente o maior produtor de soja do País e, não por acaso, campeão de desmatamento da Amazônia no período entre 2003 - 2004, responsável por 48% do total”, afirmou Gabriela Couto.

























